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O perigo do pensamento autónomo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.08.09

As pessoas preferem a ficção à realidade. É por isso que vêem televisão, por exemplo.

Nem questionam o que vêem e ouvem. Engolem e absorvem.

 

É também por isso que as pessoas são facilmente manipuláveis, programadas, dirigidas.

Também aqui se vai basear o marketing político, o marketing científico, o marketing farmacêutico, o marketing de consumo e das dependências.

 

A primeira questão que se colocam é: Como funciona esta imensa massa anónima? O que queremos que consumam? Tudo isto está estudado e documentado.

 

Claro que o jornalismo televisivo ainda tem um poder enorme! A televisão serve a sua ficção em beleza!

A internet e outras formas actuais de comunicação ainda estão fora deste controle centralizado. Na internet há espaços onde a realidade emerge e onde a grande ficção é desmontada.

Por isso não se admirem de ver em breve uma regulação qualquer a criar limites à liberdade na internet.

 

Esta é a dimensão da actual loucura colectiva: um filme em que a distribuição de papéis é cada vez menos criativa. Esta é também a lógica da linguagem do poder.

Foi isto que George Orwell viu e desmontou.   

 

 

publicado às 16:28

Beyond

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.08.09

Foi através d' A Barriga de um Arquitecto que descobri esta síntese interessante:

"Beyond é uma nova publicação dedicada à exploração das fronteiras entre a arquitectura, a literatura e as artes visuais. A primeira edição, dirigida por Pedro Gadanho, apresenta uma série de ensaios prospectivos que abordam a incerteza colectiva em relação ao futuro do mundo urbano."

 

publicado às 16:56

A importância da amizade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.08.09

N' O Consolo da Filosofia Alain de Botton aborda a importância da amizade, através do filósofo Epicuro:

"Epicuro observava que:

De todas as coisas que a sabedoria nos dá para nos permitir ter uma vida de total felicidade, a maior é de longe ter uma amizade.

O desejo de uma companhia agradável chegava a este extremo. ...

O lar de Epicuro parecia-se com uma grande família, mas aparentemente não se verificava qualquer mau humor ou sentido de confinidade, apenas simpatia e gentileza.

Não existimos se não houver ninguém que nos veja existir, aquilo que dizemos não tem qualquer significado se não houver alguém que o compreenda, ao passo que estar rodeado de amigos é uma maneira de termos constantemente a nossa identidade confirmada; o seu conhecimento e cuidado por nós têm a possibilidade de nos retirar do nosso torpor. Em pequenos comentários, alguns deles irritantes, conseguem revelar que conhecem os nossos pontos fracos e os aceitam como tal e deste modo aceitam por isso que tenhamos um lugar no mundo. ...

Os verdadeiros amigos não nos avaliam com os critérios de toda a gente, é no próprio âmago que eles se encontram interessados; como se passa no caso de pais ideais, o seu amor por nós não é afectado pela nossa aparência ou posição na hierarquia social, e não seremos vítimas de qualquer crítica se nos vestirmos com roupas velhas ou se fizermos pouco dinheiro durante esse ano.  ... Epicuro, ao discernir as nossas necessidades subjacentes, reconheceu que um punhado de bons amigos será capaz de nos dar o amor e o respeito que até mesmo uma fortuna não será capaz de fazer. "  (1)

 

Alberoni, no entanto, discorda da tese que coloca esta relação mestre-discípulos no plano da amizade:

"Desde a Antiguidade que se discute se a amizade deve ser apenas interpessoal ou pode também ser comunitária. A favor desta tese estava o ensinamento de Epicuro, o filósofo que, mais do que todos os outros, deu importância à amizade.

O ideal de Epicuro e dos seus seguidores era constituir 'comunidades' de amigos nas quais se levava uma vida de sabedoria e de perfeição. Toda a sua filosofia se orienta para a edificação de uma comunidade baseada na amizade. O 'jardim' - assim se chama a sua escola, da casa com jardim na qual se reuniam - é um cenóbio formado por um mestre e os seus discípulos. O mestre (o próprio Epicuro ao princípio) é aquele que conhece a verdade e a comunica aos discípulos. Na comunidade epicurista o pensamento do mestre nunca era posto em causa, mas ensinado a todos. Mesmo às mulheres e aos escravos, sob a forma de catecismo. É isto amizade? O epicurismo é um movimento que passa por diversas fases do estado nascente (do grupo), de instituição (de grupo) e de quotidiano do grupo. Epicuro chama amizade a uma relação que, sociologicamente, é completamente diferente: a irmandade que se constitui em movimento."  (2)

Interessante perspectiva...

"... Em que é que, portanto, a solidariedade da amizade difere da do grupo? Pelo facto de que o grupo, o 'nós', não adquire nunca um valor superior ao dos indivíduos seus membros, nunca tem uma dignidade ontológica superior a eles. O grupo existe para os indivíduos, não os indivíduos para o grupo. É este o reverso, ao mesmo tempo infinitésimo e infinito, que transforma a rede da amizade em grupo. O 'nós', naquele momento, adquire um estatuto mais elevado, torna-se um fim. Os indivíduos, embora identificados um com o outro, identificam-se com a colectividade. ..."  (3)

 

Também interessante a análise de Alberoni das incompatibilidades com a amizade: "a ambivalência, a inveja, o poder." Também identificou outros inimigos da amizade "nas grandes estruturas sociais baseadas no interesse: a organização e o mercado."  (4)

 

Claro que estamos a falar das grandes amizades, e que se inscrevem na categoria de "amizades espirituais" para Alberoni.

Mas existem "outras amizades que duram toda a vida e que não são caracterizadas por uma actividade criativa em comum e pela intensidade dos encontros. São os amigos nos quais nos habituámos a confiar sempre, em todas as circunstâncias, um pouco como se fossem da família. ... Enquanto as grandes amizades espirituais podem continuar mesmo à distância, ... estas amizades alimentam-se e crescem na proximidade. ... Em geral estas amizades, caracterizadas pela familiaridade, apoiam-se em quaisquer ocasiões regulares de encontro. ...

Enquanto as amizades espirituais são rigorosamente individuais, as amizades deste tipo podem ser divididas com os outros membros da família. ...

... Para compreender este tipo de amizades temos de lhes estudar a história, ver como apareceram, que fases atravessaram" e como se tornaram familiares. "Em regra, quando examinamos as coisas de maneira histórica, ocorre-nos que a amizade familiar teve uma fase de grande intensidade emotiva. Neste período os dois amigos encontravam-se lado a lado na luta, tinham feito um pedaço da estrada juntos na busca de si próprios e do seu destino pessoal. Se eram de sexos diferentes tinham tido, em certo momento, uma atracção recíproca forte. Talvez, por um instante, tivessem pensado que se poderiam enamorar ou que estavam mesmo enamorados. O encontro entre dois sexos tem, muitas vezes, uma tonalidade erótica que o torna semelhante ao enamoramento.  (Obs.)

... A estabilidade, a serenidade, a profunda confiança recíproca, a lealdade das amizades familiares têm a sua base no facto de ter havido um momento, no passado, em que cada um dos dois amigos se instalou na órbita vital do outro. Mesmo depois de muitos anos este elo profundo não desaparece e pode, de quando em quando, reaparecer e renovar-se. ...

Por vezes essa impressão de diálogo interrompido é acompanhada de uma forma de afecto. ... O amigo, ao dizer 'como estás? estás bem?' preocupa-se apenas com uma coisa: que o amigo esteja satisfeito, que tenha podido realizar o que queria. ...

... O amigo, de facto, pode compreender e pode ver as coisas do ponto de vista do seu interesse, da sua necessidade. Pode até dar uma opinião, um conselho. Em geral usam-se poucas palavras. ... A amizade tem sempre conhecimento da extrema complexidade das situações humanas, da incrível delicadeza dos nossos equilíbrios interiores. ..."  (5)

 

Finalmente, e porque já me alonguei no tema - a medida do valor que tem para mim - uma característica que também Alberoni destaca:

"... O mundo antigo, em particular o mundo greco-romano, não acreditava nos ideiais abstractos, longínquos e irrealizáveis. Suspeitava dos fantasmas. Desconfiava dos excessos sentimentais. Por isso dava tanta importância à amizade. Porque, na amizade, a distância entre o ideal e o real deve ser breve. Na amizade não podemos proclamar uma coisa e fazer outra. Na amizade os pactos são respeitados, a lealdade merecida. A amizade deve ser leal, sincera, límpida. O amigo deve querer o bem do amigo, não por palavras, mas concretamente. Deve estar presente no momento da necessidade. Aquele que é beneficiado não se deve nem aproveitar nem aborrecer com as ingratidões. Na amizade não se pode enganar, não se pode fazer mal, nem mesmo uma única vez. Na amizade é necessário saber ver a virtude do outro e dar-lhe valor. ... É a relação que menos suporta o exagero e a superficialidade. Compreendemos agora porque é que a amizade parece tão frágil, e porque há tanta gente que se diz desiludida da amizade. Estes confundiram-na com qualquer outra coisa, não quiseram seguir as regras do jogo. ... A amizade existia no tempo de Confúcio e existe hoje. Não há qualquer motivo para pensar que deva desaparecer no futuro. ..."  (6)

 

 

 

(1)  Botton, Alain de - O Consolo da Filosofia, Publicações D. Quixote, 2001, 3ª edição, pág. 74-75.

(2)  Alberoni, Francesco - A Amizade, Bertrand Editora, 1994, 12ª edição, pág. 85.

(3)  Idem - pág. 96.

(4)  Idem - pág. 149.

(5)  Idem - pág. 181 - 184.

(6)  Idem - pág. 194 -195.

 

 

(Obs.)  Esta também é a perspectiva de Rob Reyner no filme Um Amor Inevitável, aquele que ficou famoso pela cena da encenação de uma simulação de um orgasmo pela Meg Ryan, em pleno snack-bar, para dar uma lição a um amigo estupefacto (Billy Cristal), que era um pouco gabarolas em relação à sua performance com as mulheres. Só que no filme os protagonistas caminham da amizade para o enamoramento e o amor.

 

publicado às 11:50


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